Investigadores que analisam dados do Grande Colisor de Hádrons dizem ter detetado interações de quarks beleza a um bilionésimo de trilionésimo de metro, um passo que pode ajudar na procura da matéria escura, segundo a BBC News.

Cientistas captaram sinais da menor escala da natureza alguma vez explorada, segundo a BBC News. A análise, liderada por investigadores da Universidade de Cambridge, usou dados da experiência LHCb no Grande Colisor de Hádrons do Cern, na fronteira franco-suíça. Nas colisões é produzida uma partícula subatómica chamada quark beleza; é instável e sobrevive apenas cerca de um trilionésimo e meio de segundo antes de decair. Apesar dessa vida curta, a equipa detetou-a a interagir com outras partículas minúsculas a uma escala de um bilionésimo de trilionésimo de metro, que a BBC descreve como 100 mil milhões de vezes mais pequena do que um átomo. Alguns físicos alcunharam este domínio de «zeptoverso», e o doutor Harry Cliff, que liderou a análise dos dados, afirmou: «Estamos a bater à porta deste zeptoverso.»

O resultado é importante porque pode alimentar uma teoria mais completa sobre o funcionamento do Universo. A matéria escura constitui grande parte do cosmos, e no entanto os investigadores têm tido dificuldade em detetá-la; a sua existência só é inferida pela atração gravitacional sobre a matéria comum. Algumas teorias sugerem que, a estas escalas minúsculas, as partículas são mais sensíveis à matéria escura, o que poderia influenciar a interação e o decaimento dos quarks; a atividade aqui poderá, por isso, oferecer pistas indiretas. Cliff disse que o trabalho dá um lugar na primeira fila para observar o comportamento de possíveis novas partículas, mas que descobrir o que lá está exigirá mais dados. Os 28 países da colaboração LHCb acordaram uma melhoria do detetor de 150 milhões de libras que multiplicaria por dez a frequência destes decaimentos.

A descoberta surge num contexto de cortes de financiamento no Reino Unido. A BBC refere que a UK Research and Innovation retirou no ano passado a sua parte do financiamento da melhoria e anunciou depois cortes noutros projetos de física de partículas e astronomia, incluindo o telescópio Lovell de Jodrell Bank, apesar de um orçamento científico global recorde. O professor Tim Gershon, que lidera a colaboração LHCb, disse à BBC que a plena participação do Reino Unido está agora em dúvida e alertou que o país corre o risco de perder grandes descobertas e a formação de jovens investigadores. O professor Brian Cox, alheio à equipa, classificou o resultado como importante e condenou a decisão. A investigadora em início de carreira Mary Richardson-Slipper disse estar a ponderar empregos no estrangeiro. A UKRI indicou à BBC que continua totalmente empenhada como segundo maior financiador do Cern, com cerca de 175 milhões de libras por ano.